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Correr descalço é um assunto que sempre desperta curiosidade, pois todos se lembram de Abebe Bikila, o etíope que ganhou a maratona dos jogos olímpicos de Roma, em 1960, correndo sem calçados. Outros podem se lembrar dos quenianos que nunca haviam calçado tênis.

A dúvida não é nova, apesar de existirem estudos afirmando que correr descalço poderia ser melhor do que com os atuais tênis, mesmo porque fortalece os pés, sendo benéfico para qualquer corredor.

Daniel Lieberman, professor do Departamento de Evolução Biológica Humana da Universidade de Harvard (e também corredor) e outros três colegas colheram dados de força empreendida durante as pisadas, com pés descalços e com tênis de amortecimento. Foram filmados corredores norte-americanos que correm com e sem tênis, e adolescentes quenianos da região do Rift Valley (o celeiro dos corredores de longa distância do Quênia) que nunca haviam calçado tênis. Ao fim do estudo, constataram que mesmo em superfícies mais duras, a pisada descalça é feita com planta do pé e gera menos impacto do que a com um tênis tradicional de corrida (em que se começa a pisada pelo calcanhar), o que levanta a hipótese de que os tênis de corrida podem ser os responsáveis por causar lesões e não evitá-las.

O reflexo na musculatura de quem corre descalço é cerca de 3 vezes menor, no primeiro momento de contato no chão, do que quem usa tênis de amortecimento. Já a pisada com os tênis baixinhos de competição (usados por corredores leves e de elite) é semelhante a com a dos pés descalços, porque os pés tendem a controlar melhor o movimento de transição para minimizar o impacto, pelo fato desses tênis serem menos acolchoados.

Outra pesquisa publicada no fim do ano passado, pelo Jornal da Associação Americana Medicina e Reabilitação, afirmou que a falta de contato tangível com uma superfície firme faz com que os pés pousem com mais força, ou seja, quando estamos correndo com tênis de bom amortecimento batemos mais forte no chão. Eles estudaram 68 adultos que corriam pelo menos 25 km semanais e constataram que as forças de impacto eram menores nos quadris, joelhos e tornozelos quando esses mesmos corredores corriam sem tênis.

A polêmica ganhou maior destaque com o lançamento do bem sucedido do livro “Born to Run: A Hidden Tribe, Superathletes, and the Greatest Race the World Has Never Seen” (“Nascidos para Correr: Uma Tribo Reclusa, Super-atletas e a Maior Corrida que o Mundo já Viu”, em tradução livre), que narra a história do autor Christopher McDougall e sua empreitada para conseguir correr sem dor, suas visitas às regiões montanhosas do México onde teve contato com os índios Tarahumaras, que têm rituais competitivos em corridas que chegam a durar dias e aparentemente nunca se lesionaram. Também ganha destaque no livro o corredor Barefoot Ted (Ted Descalço) por sua defesa pela corrida sem tênis, com grande repercussão pelos Estados Unidos.

Outra coisa interessante é que parece não haver ”espécie” pronadora, supinadora ou neutra quando se corre sem tênis: toda a correção da pisada seria feita pelos próprios pés. Dessa forma, ficaria sem sentido a teoria que diz que para se correr descalço é necessário que se tenha biomecânica perfeita (pisada neutra).

OPÇÕES PARA CORRER QUASE DESCALÇO. O estudo de Lieberman deixa claro que não é necessário ser radical e correr absolutamente descalço, e sabemos que a absoluta maioria dos corredores atuais não irá fazer essa opção por nada desse mundo.

Existem os tênis mínimos ou os modelos baixinhos para competição. O calçado mínimo mais conhecido e usado no exterior é o Vibram Five Fingers (www.vibramfivefingers.com), uma espécie de luva para os pés com um solado de 4mm, que foi muito divulgado pela mídia em geral.

Podemos então refletir sobre uma frase de Lieberman: “Uma das máximas mais comuns é aquela que diz: ‘Para começar a correr basta comprar um tênis’. Na verdade, para começar a correr basta que você tenha pés.” De qualquer forma, a proporção de corredores que já adotaram a corrida sem tênis ou com tênis mínimo é muito pequena em relação ao enorme número de corredores no mundo inteiro. E além do mais, os tênis de corrida são um símbolo de status e o objeto que melhor representa a “tribo” corredores da qual todos nós fazemos parte.

Edição 198 – REVISTA CONTRA O RELÓGIO – SÉRGIO ROCHA E REDAÇÃO

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